Como o risco cambial afeta os ETFs?

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Investir em ETFs internacionais pelo Brasil pode parecer simples — mas há um risco que costuma passar despercebido mesmo por investidores experientes: o risco cambial. Quando você compra um ETF cujo ativo subjacente está em dólares, mas o ETF é negociado em reais na B3, a variação do câmbio USD/BRL pode ampliar ou reduzir seus retornos de forma significativa. Entender essa dinâmica é fundamental antes de incluir ETFs internacionais na carteira.

Pontos-chave

O que é risco cambial?

É o impacto que pode ter, positivo ou negativo, quando investimos ou compramos/vendemos um ativo que está cotado numa moeda diferente da nossa, mas que queremos converter na nossa moeda.

Isso acontece inclusive fora da Bolsa — por exemplo, se alguém compra produtos nos EUA em dólares e os vende no Brasil em reais, está incorrendo em risco cambial. Se comprou os produtos por US$100 quando o câmbio era R$5,00 por dólar (gastou R$500), e na hora da venda o câmbio caiu para R$4,50, o produto ainda vale US$100 — mas convertido em reais agora vale R$450. A perda de R$50 é uma forma de encarar o risco cambial. Obviamente, também pode mudar a seu favor.

Mas antes de explicar o impacto nos investimentos em ETF, é necessário distinguir entre três conceitos:

Moeda base

A moeda base refere-se à moeda em que o ETF foi criado e está domiciliado, mas também à moeda em que está originalmente cotado. Por exemplo:

  • O ETF IWD iShares Russell 1000 Value está domiciliado nos EUA e sua moeda base é o dólar americano.
  • O ETF IDVY iShares Euro Dividend UCITS domiciliado na Irlanda e cuja moeda base é o euro EUR.
  • ETFs domiciliados no Brasil têm como moeda base o Real (BRL).

Moeda de cotação de ativos

Os ETFs possuem em seu interior diversas ações que podem pertencer a um único país com a mesma moeda ou a vários países, cada um com a sua moeda própria. Por exemplo:

  • O ETF BOVA11 iShares Ibovespa possui ações brasileiras e todas são negociadas em Reais brasileiros (BRL).
  • O ETF IVVB11 iShares S&P 500 FI em Cotas de Fundo de Índice Investimento No Exterior detém ações de empresas dos EUA e todas são negociadas em dólares americanos (USD), mas o ETF é negociado em Reais brasileiros na B3.
  • O ETF SPXI11, similar ao IVVB11, também possui ações de empresas dos EUA cotadas em dólares americanos, sendo uma opção para investidores brasileiros que desejam exposição ao mercado americano, mas com negociação em Reais na B3.
  • O ETF SMAL11 possui empresas brasileiras de menor capitalização listadas na B3 e negociadas em Reais brasileiros — sem risco cambial.

Para quem deseja diversificar com exposição a ativos estrangeiros, ETFs que replicam índices internacionais mas são negociados em Reais na B3 são a opção mais prática. A flutuação na taxa de câmbio entre o Real e a moeda estrangeira pode impactar o desempenho do investimento — tanto positiva quanto negativamente.

Moeda de cotação do ETF

Refere-se à moeda em que o ETF é negociado, independentemente da sua moeda base ou da moeda do seu subjacente. Por exemplo:

  • O ETF BOVA11 está listado na B3 em BRL, sua moeda base é BRL, e seus ativos subjacentes estão listados em Reais — sem risco cambial.
  • O ETF IVVB11 está cotado na B3 em BRL, mas em USD no seu mercado doméstico (EUA) e seus ativos subjacentes estão cotados em dólares americanos — risco cambial total.

A cadeia de risco cambial pode assumir vários elos se cada uma das moedas (base, subjacente e cotação) for diferente — e nesse caso o risco seria maior. Isso não é para demonizar os ETFs com essa característica, mas para que o investidor compreenda o impacto das moedas nos retornos — e não fique coçando a cabeça tentando entender por que seu ETF não subiu tanto quanto o seu equivalente no mercado doméstico.

Como o risco cambial afeta os ETFs?

Em termos gerais, existem dois impactos do risco cambial — um positivo e outro negativo para os nossos retornos — e depende de:

  • No momento em que compramos
  • Se a tendência futura do ETF é de alta ou de baixa
  • Se a nossa moeda (BRL) em relação à moeda base do ETF (USD) se valoriza ou se desvaloriza

Vamos imaginar que um investidor compra o ETF VOO em reais em abril de 2020, mas sabemos que sua moeda base é o USD e suas moedas subjacentes também são cotadas em USD. O gráfico a seguir mostra o desempenho do VOO em USD versus em moeda local:

Comparação de desempenho do ETF VOO em USD versus moeda local — impacto do risco cambial

Comprando perto do fundo do mercado (quando a tendência futura era de alta e a moeda local se valorizava), o VOO em USD teve mais retorno do que o mesmo ETF em moeda local. Isso porque a valorização da moeda local compensou parte da alta do VOO em dólares. Esta é a parte do risco cambial que nos afeta negativamente quando o real se fortalece frente ao dólar.

Desempenho do ETF VOO em USD em período de queda — efeito do câmbio

Mas há o lado positivo: antes do crash de 2020, quando o dólar se valorizou frente ao real, o ETF em reais caiu menos em março e abril. E graças a essa queda menor, teve melhor desempenho relativo.

ETF VOO em moeda local caindo menos durante crash de 2020 — efeito protetor do câmbio

Como você pode mitigar o risco cambial em ETFs?

Existem duas formas principais e acessíveis.

A primeira é comprar um ETF que tenha cobertura cambial — um ETF com a palavra "hedged" no nome. Isso transfere parte do risco cambial, mas não todo ele, e expõe o investidor a retornos diferentes dependendo do momento da compra, da tendência futura do ETF e do que faz a taxa de câmbio.

O gráfico a seguir mostra o desempenho do IVV cotado em USD e de uma versão com cobertura cambial do mesmo ETF:

Comparação entre IVV em USD e versão com cobertura cambial — hedge cambial em ETFs

Em geral, se o objetivo for o longo prazo, a cobertura cambial em ETFs de ações não é recomendada — mas pode variar conforme o horizonte de investimento e o perfil de risco. Para quem prefere exposição simples ao mercado americano em BRL, confira a lista das melhores corretoras para investir em ETFs no Brasil.

Perguntas Frequentes sobre Risco Cambial em ETFs

Fontes citadas: B3 — Brasil, Bolsa, Balcão (b3.com.br); BlackRock Brasil — iShares IVVB11 (blackrock.com/br); Banco Central do Brasil — série histórica USD/BRL (bcb.gov.br)