Como investir em Cacau? Ações, ETFs e Derivativos

Índice
Os contratos futuros de cacau se consolidaram acima de US$ 5.000 por tonelada, um patamar historicamente alto sustentado pelo receio com a safra 2026/27 da Costa do Marfim. Para quem quer investir em cacau, o ponto de partida é entender por que o preço saiu do lugar.
Quatro países da África Ocidental respondem por cerca de 75% da oferta mundial, o que torna a commodity refém de clima, pragas e política em uma região muito concentrada.
A seguir, como funciona o mercado, quem produz e consome, o que mexe na cotação e os quatro instrumentos disponíveis para se expor ao cacau a partir do Brasil.
Pontos-chave
- Oferta concentrada na África Ocidental: cerca de 75% do total.
- Futuros negociados acima de US$ 5.000 por tonelada.
- Quatro vias: futuros, CFDs, ETCs e ações do setor.
- Não há contrato de cacau na B3.
Introdução ao mercado de cacau
O cacau é considerado um produto básico de luxo e um ingrediente essencial na preparação de chocolates. A partir dele são feitos os melhores doces do mundo, assim como muitos outros produtos de diversas indústrias.
Chamamos de 'cacau' o fruto cultivado na árvore de mesmo nome. A semente dessa fruta passa por um processo de 5 etapas: fermentação, secagem, torrefação, esmagamento e moagem. Após as 3 primeiras fases obtém-se os grãos de cacau e das 2 últimas obtém-se o cacau em pó.
A popularidade do cacau o torna um ativo importante no mercado de commodities agrícolas. Questões de abastecimento, ambientais e políticas às vezes podem torná-lo um investimento bastante volátil.
Essa volatilidade cria oportunidades para quem entra em momentos extremos, mas funciona nos dois sentidos: o mesmo mecanismo que levou o cacau a máximas históricas pode devolver o preço com a mesma velocidade quando a oferta se recompõe.
Breve história do cacau
O cacau é nativo das Américas e era uma cultura altamente valorizada nas primeiras culturas sul-americanas. O termo cacau tem sua origem na palavra náuatle "cacahuatl".
Estima-se que a planta tenha crescido primeiro nas bacias dos rios Amazonas e Orinoco, embora os maias e astecas tenham desenvolvido técnicas para cultivar o cacau com sucesso.
A planta era considerada um símbolo de riqueza para essas civilizações e seus grãos eram usados como moeda.
Variedades de cacau
Os grãos de cacau são cultivados em 3 variedades básicas:
- Grão crioulo (criollo).
- Grão forastero.
- Grão trinitário.
Os grãos de cacau crioulo estão em alta demanda no mercado mundial devido à sua alta qualidade. Por esse motivo, são mais caros que as outras 2 variedades. O forastero, mais resistente e produtivo, é o que domina o volume negociado nas bolsas.
Quais são os principais países produtores de cacau?
Os grãos de cacau são cultivados em áreas tropicais ao redor do equador, onde as condições climáticas são adequadas para o crescimento de cacaueiros.
Cerca de 75% dos grãos de cacau do mundo vêm de 4 países da África Ocidental: Costa do Marfim, Gana, Nigéria e Camarões. A Costa do Marfim e Gana são de longe os 2 maiores produtores, e só a Costa do Marfim responde por cerca de 40% da produção mundial.
Na safra 2022-2023, somente a Costa do Marfim produziu aproximadamente 2,03 milhões de toneladas métricas de grãos de cacau. Gana, Nigéria e Camarões produziram 883.652, 328.263 e 295.028 toneladas, respectivamente, e a Indonésia ficou em terceiro lugar com 659.776 toneladas.
Pela região da América Latina, destacam-se Brasil, Equador, Peru, República Dominicana e Colômbia, que completam o top-10 nessa ordem. Juntos, eles alcançaram uma produção agregada de 706.996 toneladas.
Fonte: World Population Review, produção por país na safra 2022-2023.
O que mudou na oferta e levou o preço às máximas
A concentração da oferta deixou de ser um dado de contexto e virou o motor do preço. Depois de safras seguidas em déficit na África Ocidental, os futuros do cacau passaram a operar acima de US$ 5.000 por tonelada, muito acima da média histórica da commodity.
O mercado segue tenso com a safra 2026/27 da Costa do Marfim. Levantamentos junto a traders e exportadores apontam risco de queda expressiva na produção marfinense, e o Coffee and Cocoa Council trabalha com uma safra principal de até 1,4 milhão de toneladas, abaixo da média recente de cerca de 1,7 milhão.
Para o investidor, a leitura é dupla: o patamar elevado já embute o medo de escassez, então uma recomposição de oferta pode derrubar a cotação tão rápido quanto a fez subir.
Quais são os principais países consumidores de cacau?
Podemos afirmar que os países com maior consumo de cacau são aqueles que, por sua vez, possuem alto consumo de chocolate, principal produto derivado do cacau.
A Plataforma Suíça para o Cacau Sustentável descreve uma matéria-prima cultivada no sul e consumida no norte. O gráfico a seguir mostra o consumo per capita de chocolate por país:

Com um consumo per capita de 11,6 kg, a Suíça liderou as estatísticas mundiais. Em média, uma pessoa na Suíça consome 11,6 vezes mais chocolate por ano do que uma pessoa na Índia.
O segundo e terceiro lugares foram ocupados pelos Estados Unidos, com 9,0 kg, e pela Alemanha, com 5,7 kg. O top 5 é completado por França e Reino Unido, com 3,6 e 3,0 kg, respectivamente.
Como esperado, as maiores e mais desenvolvidas economias concentram o consumo de cacau no mundo.
Quais são os fatores que afetam os preços do cacau?
Como no caso das matérias-primas agrícolas, o preço é estabelecido com base na oferta e na demanda, o que pode gerar altos níveis de volatilidade.
Outros fatores que afetam drasticamente os preços do cacau são:
- Condições climáticas. O clima pode provocar grandes oscilações na oferta, já que o cultivo do cacau exige condições específicas. Longos períodos de seca, por exemplo, reduzem o rendimento das colheitas.
- Custos trabalhistas. Há uma pressão crescente sobre os países da África Ocidental para reduzir o uso de trabalho infantil nas plantações, estimado em cerca de 2 milhões de crianças em estudo publicado pela Universidade de Tulane. Isso tende a encarecer a mão de obra e, com ela, o preço final do cacau.
- Pragas e doenças nas culturas. Várias pragas e doenças, como o vírus do broto inchado transmitido por insetos, podem atacar as plantações e diminuir a produtividade. Para combater doenças como essa, árvores infectadas devem ser cortadas e novas plantadas, que podem levar anos para atingir uma produção aceitável.
- Envelhecimento dos cacaueiros. Boa parte das plantações da África Ocidental está no fim do ciclo produtivo, e a renovação é lenta e cara para o pequeno produtor. É um fator estrutural, que não se resolve com uma safra boa.
- Agitação civil e política. O continente africano tem assistido a tumultos constantes que podem afetar a atividade agrícola. A Nigéria, um dos maiores produtores mundiais, enfrenta há anos uma insurgência armada que causa instabilidade.
Instrumentos financeiros para investir no cacau
Existem 4 instrumentos principais para investir no cacau:
Futuros de cacau
Este tipo de contrato supõe um acordo vinculante entre duas partes para a compra e venda de um ativo numa data futura a um preço predefinido.
É um tipo de contrato de derivativo padronizado, negociado em bolsas eletrônicas como a Intercontinental Exchange (ICE), referência mundial para o cacau, e a CME Group.
São operados com margem (alavancagem), por isso seu risco é maior do que na operação à vista. Além disso, você pode evitar a entrega física por meio da rolagem do contrato.
Investir em cacau através de futuros tem 2 vantagens claras:
- Esses instrumentos são negociados em uma bolsa centralizada e regulamentada onde as operações são cruzadas, portanto há grande transparência na precificação.
- As comissões são muito baixas em comparação com outros instrumentos, como CFDs.
Dentre os principais contratos podemos citar:
- ICE: CC, o contrato de referência global.
- CME Group: CJ.
Não existe contrato futuro de cacau na B3, então o acesso passa necessariamente por uma corretora com mercado internacional. Descubra as melhores corretoras de futuros do Brasil
CFDs sobre ativos de cacau
Os Contratos por Diferença são derivativos que permitem especular sobre o preço, mas sem realmente adquirir o ativo subjacente .
Eles também são negociados na margem e seu risco é bastante alto devido à alavancagem. Grandes ganhos podem ser obtidos, mas as perdas potenciais aumentam na mesma proporção .
Para investir em cacau temos CFDs que seguem contratos futuros e CFDs que seguem ações de empresas que participam da cadeia de valor do cacau.
Não se esqueça que, diferentemente dos futuros, os CFDs não são negociados em um único mercado. Pelo contrário, será a corretora que fará a contrapartida de todas as suas operações .
Por outro lado, as comissões que as corretoras cobram para negociar com ativos de cacau são baseadas no spread , que pode ser alto.
Revise os melhores corretores internacionais para negociar CFDs.
ETFs sobre ativos de cacau
O ETF ou 'Exchange Traded Fund' é um instrumento de investimento agrupado muito parecido com um fundo mútuo. Os ETFs investem em um grupo específico de ativos, como ações, índices e futuros, em troca do pagamento de uma taxa de administração .
O ETF combina as características de uma ação com um fundo mútuo. Você pode comprar e vender cotas a qualquer momento durante o pregão.
A comissão para despesas de administração pode ser maior ou menor dependendo do tipo de gestão (ativa ou passiva) que o fundo exige . Este é um aspecto crucial ao selecionar o produto.
No caso do cacau, a oferta é curta e vale um alerta antes de sair procurando ticker:
- WisdomTree Cocoa (LONDRES: COCO): ETC negociado em Londres que acompanha os futuros de cacau, hoje a principal forma listada de exposição direta à commodity.
- iPath Bloomberg Cocoa Subindex Total Return ETN (NIB): não está mais disponível. O Barclays resgatou integralmente o produto em 14 de junho de 2023, com a negociação suspensa desde 8 de junho daquele ano. Se você encontrar o ticker em listas antigas, ignore.
Se você deseja encontrar um bom intermediário, deixamos o link para as melhores corretoras para comprar ETFs do Brasil
Ações relacionadas ao cacau
As ações à vista representam um instrumento de investimento indireto que concede parte do capital social de uma empresa e, com isso, o direito de receber uma fração dos potenciais lucros gerados.
Nesse caso, não investimos no cacau como 'commodity', mas em uma empresa que participa da cadeia de valor dessa matéria-prima. Atenção ao efeito contrário: cacau caro é custo para quem fabrica chocolate, e a alta da commodity costuma pressionar a margem dessas companhias.
Com as ações podemos nos beneficiar da valorização na bolsa e dos eventuais dividendos distribuídos .
Entre as empresas mais importantes do setor podemos citar:
- Nestlé (SUÍÇA: NESN) .
- Mondelez International (NASDAQ: MDLZ) .
- Hershey (NYSE: HSY) .
- Lindt & Spruengli AG N ( SUÍÇA: LISN ).
- Rocky Mountain ( NASDAQ:RMCF ).
Procure as melhores corretoras para comprar ações e selecione aquela que se adapta às suas características.
Como declarar o investimento em cacau no Brasil
Como todo o acesso ao cacau passa por mercados externos, vale a regra da Lei 14.754/2023: os rendimentos de aplicações financeiras no exterior são tributados à alíquota única de 15%, apurada uma vez por ano na declaração de ajuste anual, sem faixa de isenção para valores pequenos.
Isso vale tanto para ganhos com ETCs e ações quanto para resultados em derivativos mantidos fora do país. Guarde os extratos da corretora: é neles que se apura o custo de aquisição.
Por onde começar a investir em cacau
Cacau é uma das commodities mais concentradas do mundo, e isso explica tanto a alta histórica quanto o risco de queda brusca. A exposição mais simples é pelo ETC listado; futuros e CFDs pedem gestão de margem e não são porta de entrada.
Comprar no topo de uma commodity em crise de oferta é o erro clássico do ciclo agrícola. Defina o tamanho da posição antes de escolher o instrumento, e trate o cacau como satélite da carteira, nunca como posição central.
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Perguntas Frequentes sobre investir em cacau
Fontes consultadas:
- Intercontinental Exchange (ICE), contrato futuro de cacau e cotações de referência.
- Barclays, comunicado de resgate dos ETNs iPath, incluindo o NIB.
- Receita Federal do Brasil, Lei 14.754/2023 sobre aplicações financeiras no exterior.