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Guerra comercial global: como o Brasil pode se posicionar e lucrar?

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No complexo tabuleiro da economia mundial, as crescentes tensões comerciais, especialmente a guerra comercial EUA China Brasil, colocam nosso país em uma posição intrigante. Analistas e exportadores brasileiros estão de olho vivo: será que o Brasil pode transformar esse cenário de disputa em vantagem econômica? Tudo indica que sim.

O ímã chinês: demanda aquecida por produtos brasileiros

Um dos efeitos mais visíveis dessa briga de gigantes é a busca da China por alternativas aos produtos americanos. Em momentos de tarifas elevadas, Pequim não hesitou em aumentar seus estoques de soja brasileira, e a guerra comercial intensifica essa tendência, beneficiando diretamente nosso agronegócio.

Mas não é só a soja. Fornecedores brasileiros de diversas commodities – do algodão ao frango, passando pela carne bovina – também antecipam um aumento na demanda chinesa. Esse otimismo costuma dar um gás no mercado financeiro local. Não raro, em períodos de maior protecionismo global, vimos o Ibovespa, nosso principal índice da bolsa (com forte peso das commodities brasileiras mais exportadas), performar melhor que índices americanos como o S&P 500.

Relações Brasil-China: uma parceria estratégica em expansão

Essa dinâmica se assenta em laços comerciais que se estreitaram muito nas últimas décadas. O Brasil, com sua riqueza em minério de ferro, petróleo e proteínas animais, atende a necessidades cruciais da China.

Por outro lado, o capital chinês se tornou vital para destravar projetos de infraestrutura no Brasil, um desafio histórico para nosso desenvolvimento. O investimento chinês no Brasil (com estimativas que já ultrapassaram US$ 70 bilhões e seguem relevantes em 2024) é visível em diversos setores. Empresas chinesas têm participação importante na geração e distribuição de energia, construíram portos, estradas e avançam em projetos ferroviários chave.

Gráfico mostrando o crescimento das exportações de Soja, Minério de Ferro e Petróleo do Brasil para a China entre 2018 e 2023.

Gráfico 1: Principais Exportações Brasileiras para a China (2018-2023, Valor US$ Bilhões FOB).
Fonte: Comex Stat/MDIC

Governos recentes, incluindo o de Lula, têm tratado essa relação como prioridade, buscando fortalecer os laços econômicos e diplomáticos com Pequim.

Novas frentes: oportunidades além da China

A reconfiguração do comércio global abre outras portas. Há uma expectativa real de aumentar as exportações brasileiras não apenas para a China, mas também para os Estados Unidos e outros países que buscam fugir das tarifas cruzadas. As oportunidades para o Brasil na guerra comercial parecem ir além do agronegócio.

Um exemplo claro é o setor de calçados. O Brasil é um gigante na produção fora da Ásia. Com as tarifas podendo apertar os produtos chineses nos EUA, a Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados) vê uma brecha para ampliar as vendas de calçados brasileiros nos EUA. Seria um impulso bem-vindo para uma indústria que busca agregar valor, aproveitando nossa farta oferta de couro.

"Se não tivermos tarifas significativas sobre nossos produtos, a oportunidade de crescer nos EUA, nosso principal destino, é real", comenta Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados.

Para visualizar melhor os potenciais impactos e oportunidades para diferentes setores brasileiros neste cenário de guerra comercial, veja a tabela abaixo:

Setor/Produto BrasileiroImpacto Potencial da Guerra ComercialPrincipal Mercado (Oportunidade/Risco)Observações Chave
Soja▲ PositivoChinaAumento da demanda chinesa para substituir produto EUA.
Carne Bovina/Frango▲ PositivoChinaAumento da demanda; Brasil visto como fornecedor seguro.
Algodão▲ Positivo (Potencial)ChinaPotencial de maior demanda chinesa.
Commodities Gerais (Minério, Petróleo)► Estável / PositivoChinaDemanda estrutural chinesa continua forte.
Aço▼ Risco / NegociaçãoEUASujeito a tarifas americanas; negociações em curso.
Calçados▲ OportunidadeEUAPotencial para substituir produtos chineses tarifados.
Infraestrutura▲ Oportunidade (Investimento)N/A (Foco em Capital)Atração de investimento chinês para projetos (ex: FIOL).

Desafios na mesa: o impacto das tarifas americanas no Brasil

Claro, nem tudo são flores. O Brasil não está imune ao protecionismo. Somos grandes exportadores de aço para os EUA e já sentimos o impacto das tarifas americanas no Brasil sobre aço e alumínio em momentos anteriores. Negociar para minimizar esses efeitos sobre nossas siderúrgicas é um trabalho constante da diplomacia brasileira.

Embora o ex-presidente Trump tenha criticado nossas próprias barreiras de importação, o histórico de superávit comercial dos EUA com o Brasil pode, segundo economistas, oferecer alguma blindagem contra medidas mais duras de Washington. André Perfeito, da consultoria Necton, já associou a força relativa do Real em certos períodos a esse cenário: "Trump (e as tensões comerciais) embaralham o jogo do comércio, abrindo janelas para o Brasil", analisa.

Lições do passado e perspectivas futuras

Investidores e empresários recordam que, durante o primeiro mandato de Trump, o Brasil colheu benefícios das tensões comerciais globais, principalmente via aumento da demanda chinesa por soja, grãos e carne, em retaliação às medidas dos EUA. Na época, agricultores americanos sofreram perdas bilionárias em exportações.

"Essas tensões comerciais tendem a levar a China a comprar mais grãos e proteínas do Brasil, reduzindo a demanda nos EUA e impulsionando as exportações brasileiras de soja, carne bovina e frango para o mercado chinês", avalia Plinio Nastari, presidente da consultoria agrícola Datagro.

Dados setoriais corroboram essa visão. Em períodos de alta demanda chinesa e problemas sanitários em outros fornecedores (como surtos de gripe aviária nos EUA), as exportações brasileiras de frango e ovos apresentaram crescimentos expressivos, conforme monitorado pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). A ausência de focos de gripe aviária no Brasil em momentos críticos aumentou o apelo do produto nacional para a China.

Impactos geopolíticos e investimentos em infraestrutura

A crescente interdependência econômica entre Brasil e China não passa despercebida por Washington, que vê implicações estratégicas. Autoridades americanas expressam preocupação com a presença chinesa na América Latina, especialmente em projetos com potencial uso dual (civil e militar), como portos de águas profundas e estações de rastreamento de satélites em países vizinhos.

No Brasil, um foco recente tem sido a expansão da malha ferroviária para reduzir custos logísticos e combater a inflação de alimentos. A estatal China Railway participa de projetos importantes, como a construção de trechos da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL), que conecta o cinturão agrícola do Centro-Oeste a portos no Nordeste.

"A China tem tanto a expertise internacional quanto a capacidade de investimento (necessárias para esses projetos)", afirmou Renan Filho, Ministro dos Transportes do Brasil, em entrevista.

Navegando em águas turbulentas

guerra comercial EUA China Brasil, apesar das incertezas, desenha um cenário de oportunidades para o Brasil. A chave está em nossa capacidade de:

  1. Atender à robusta demanda chinesa por commodities brasileiras.
  2. Explorar nichos em outros mercados, como o de calçados brasileiros nos EUA.
  3. Manter a competitividade e avançar nas negociações comerciais.
  4. Continuar investindo em infraestrutura para reduzir custos.

Se jogarmos bem nossas cartas, o Brasil pode não apenas navegar, mas também lucrar com as atuais turbulências do comércio internacional, fortalecendo setores chave como o agronegócio e a indústria.

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